terça-feira, 28 de abril de 2009

Está tudo tão mudado....




Papá está tudo tão mudado
Da terra já não brota mais feijão
Antes, está sufocada com betão
E o agricultor deixou de o ser, desanimado.

Papá está tudo tão diferente
Que o peixe que encontramos no mercado
Chega-nos em caixotes, empilhado
Pescado, mas não como antigamente.

Sabes Papá, os pássaros fazem ninhos
Mas não nas árvores, como era dantes
Em equilíbrio em cabos ou tirantes
Aqui e ali deixam os ovinhos.

Papá, se voltasses cá, poderias ver
Como este país se arrasta e se tortura
Pior que noutros tempos, os da ditadura
Lutando cada dia, pr’a sobreviver.

Falta de trabalho, de dinheiro e pão
Estão a levar Portugal ao fundo,
Mas não só nesta terra, é por todo o mundo
À espera sempre que venha uma mão.

Abril é só um mês do ano, nada mais
A pouco e pouco a censura está a voltar
A tua geração está a acabar
E os restantes que ficam, vivem já, sem ideais.

Papá, só o que não muda e está sempre igual
É que os que trabalham, e lutam cada dia
Para deixar para trás, toda esta agonia
Não conseguirão mudar Portugal.

Porque há quem não queira, porque não dá jeito
Porque sobrevivem da corrupção
E a nossa justiça, continua cega, e leve tem a mão
E os Portugueses, outrora valentes, onde é que eles estão?

Papá, gostava de te ter aqui sentado
Para te dizer que amar seja quem for
Terá de ser escondido ou disfarçado o amor,
E dizer o que se sente é censurado.

Papá, mesmo com toda esta mudança
Eu queria dizer-te que é de ti que gosto
Mesmo que às vezes, fosses meu oposto
Eu amo-te Papá como quando era criança.

Papá, está tudo tão mudado
Que se nos voltássemos por aí a encontrar
E eu quisesse muito te abraçar
Teria de certeza de primeiro, olhar para o lado.

Papá está tudo tão mudado!
Mas as saudades, essas são iguais
São talvez mais fortes, até mais reais
Que com muita coragem tenho suportado.

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